domingo, 20 de setembro de 2009

Passear, utilizando transporte coletivo é uma coisa. Ir e vir do trabalho, de ônibus, isso é outra coisa!

PARTE III – Respeito é bom e eu gosto! (de receber e praticar)

Depois de tantos dias escrevendo e “papirando” sobre minhas idas e vindas por meio do transporte público da minha cidade, por gentileza, tente “bytizar” os bits que registro por aqui.

Afinal, ter que ouvir o funk proibidão que o passageiro, meu irmão do assento ao lado teima em partilhar no último volume do seu celular, sinceramente, isso pode proporcionar muita esquisitice em quem ouve.

Pronto! Cheguei aos celulares!

Briga de marido e mulher, bate-boca com a sogra, confirmação de encontro com o(a) amante, mentiras zil para o patrão, sedução erótica, fechamento de negócios estranhos, palpite no jogo-do-bicho, mãe monitorando e socorrendo os filhos, tudo bem, admitamos ser assunto que pode ser resolvido por meio dos celulares. Mas, aos berros, sonoramente, repleto de gestos e com o passageiro totalmente à-vontade diante da plateia que a tudo assiste ... aí já passou do limite da esquisitice, pois não? Ou não! Do jeito que nossas vidas andam tão expostas, proporcionar um reality-show na condução pode ser até popular! Afinal, ultimamente, são muitos os ônibus repletos de câmeras.

Entretanto, após o advento dos telefones portáteis, além das mediações e acertos entre partes, o aparelho, dentre outras zil ferramentas, garante uma sonoridade e alcance ideal para a divulgação de músicas de variados estilos: religiosas (incluindo o sermão do partor!), sertanejas, americanas e as mais tocadas na rádio autoritária da condução: os funks cariocas! Gente! Isso é demais!!!

Levando em meu colo a mochila da estudante (e como pesa essa criatura!), enquanto alongo meu olhar para além do transporte que me carrega e constato o caos do trânsito da minha cidade; enquanto observo os meninos-pivetes driblando os motoqueiros e prontos para o bote nos relógios e bolsas dos donos das janelas, lembro da reportagem que li sobre uma certa senhora Jeannine Vromant.

Moradora de Dieppe (França) morreu em março de 2008, aos 86 anos. Seus bens, conforme constava de seu testamento, foram distribuídos a enfermeiros, socorristas, funcionários públicos e, pasmem, a todos os motoristas de uma empresa de ônibus de sua cidade.

Certamente de lá, de sua cidade, Jeannine Vromant me aponta a saída.

Papirando aqui com você, exercitando dia após dia meus valores espirituais e cidadãos, de alguma forma, interfiro na realidade absurda que teima em parecer normal.

A quem interessa que o transporte público da minha cidade permaneça nesse modelo?
A quem interessa que os cidadãos comuns sejam, dia após dia, prensados em seus minúsculos assentos, ajustados aos corredores estreitos, sacudidos e arrastados entre a roleta e a escada de descida?
A quem interessa se o motorista e o trocador perpetuam o tratamento que recebem dos múltiplos fiscais que a cada 200 metros forçam suas paradas e anotam em suas folhinhas encardidas os números que identificam o tempo gasto/vivido/sofrido durante o trânsito?
A quem interessa que os trabalhadores cheguem aos seus empregos e retornem aos seus lares com seus espíritos já tão massacrados e abatidos?

Lembrei da Clarice Lispector:
“E se me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar.”

2 comentários:

  1. Ana seus textos são ÓTIMOS!! Retratam o dia a dia (com ou sem hífen...) dos incansáveis trabalhadores brasileiros!!!
    PARABÉNS!!

    ResponderExcluir
  2. Obrigada, Regina.
    Que possamos, de alguma forma, interferir (para o bem) na absurda realidade onde estamos.
    Continue voltando.
    Abraços,
    AW.

    ResponderExcluir