CARECA
Não é assim, de uma hora pra outra, no susto ou no improviso que vou traçando minha estrada. Ta certo. Tem horas e situações que sim. Tem horas, muitas, em que não consigo evitar o voo e o salto aos ares. Entretanto, corriqueiramente, sou mulher que planeja, desenha, pesquisa, pondera, dialoga e procura, primeiro no bem lá dentro de mim e depois, no que queiram partilhar comigo, sobre suas experiências e vivências e fatos adquiridos.
Dito isto, informo para quem não COMvive comigo que foram alguns meses nesse namoro, conflito e consequente divórcio, levado às vias de fato, com minha cabeleira.
Eu me olhava e não me via.
Eu me penteava e não me arrumava, de fato.
Aquela cabeleira loura, lisa, adequadamente disposta em franja e nuca repicada ... sim, faz tempo que já não era eu, de verdade.
Eu? A outra que ao menos de 15 em 15 dias teimava em começar a dar as caras, por baixo do liso e louro repicado.
Eu? A outra que durante as corridinhas noturnas diárias reclama do rabo de cavalo que teima a esgueirar-se das piranhas (quem tem cabelo sabe do que estou falando rs).
Eu? A mulher inteira reduzida a tintas com chumbo, alisamentos "sem formol", inspirando outras mulheres a correrem para o salão tal e marcarem hora com o "personal hair style" fulano de tal, despejando grana e vitalidade nessa indústria excêntrica e ditatorial.
Fui alongando meu olhar para outros estilos de mulheres e suas cabeleiras (ou falta delas).
Algumas estavam sem cabelos por conta de tratamentos de saúde. Dentre elas, amigas que se orgulhavam - assim como eu - de suas cabeleiras e que de repente viam-se assim, mudadas em outras imagens. Me identifiquei e senti com cada uma delas.
Outras me ensinavam sobre o protesto das cores, dos cortes e significados para a utilização de máquinas 1, 2, 3 e 4. Quanta alegria e coragem, nessas mulheres.
Algumas, bem mais sábias do que eu, me falaram apenas do orgulho de serem grisalhas, de estarem vivas, de após os desastres e desesperos das lutas da vida, simplesmente admirarem-se por serem maduras, singulares e felizes.
Foi aí que minha linda afilhada, Layla, cientista política, artista, questionadora, espiritualizada e escancaradamente feliz em suas batalhas diárias contribuiu na decisão. Nossa proximidade, afeto e busca constante por simplicidade na rotina de viver conduziu-nos ao pacto de pós carnaval: retorno ao salão de beleza para que deixássemos lá as mulheres que fomos por muitas estações e, a partir dali, reencontrar e resignificar as mulheres que somos hoje, apenas.
Nossas cabeças agradecem.
A ida ao Salão - merece outro post.
As diversas reações - de estranhos e amigos, idem.
